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Análise: Marvel’s Spider-Man (PS4) é a esperada redenção da Casa das Ideias nos consoles

Aventura supera as expectativas e traz vida nova ao herói depois de uma década e meia de insucessos.

Foram dois anos cheios de dúvidas que nem mesmo os diversos trailers conseguiram responder. O retorno do Homem-Aranha ao Playstation ainda gerava muito ceticismo sobre como o jogo seria conduzido. A década inteira foi recheada de títulos que foram de medianos a fracassos, ritmo esse que também acompanhou os últimos dois filmes lançados na época. A última aventura original, Spider-Man: Edge of Time (Multi), até se esforçou, mas ainda não conseguia simbolizar o que deveria ser uma aventura a altura do herói. Marvel’s Spider-Man (PS4) enfim conseguiu honrar seu legado com um jogo digno de aplausos de toda Nova Iorque.

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”

Essa frase, uma das mais famosas da história do Homem-Aranha e das HQs em geral, não podia ter se mostrado mais verdadeira. Lidar com um dos maiores nomes da Marvel não é uma tarefa fácil, por inúmeros fatores. De 2000 até 2014, a Activision tentou de tudo para fazer bom proveito do Cabeça de Teia. Foram inúmeros jogos para diversas plataformas, tanto originais quanto baseados em filmes, mas apenas um deles foi certeiro até então.

Spider-Man 2 (Multi), lançado em 2004, foi baseado no filme de mesmo nome e o único a realmente agradar tanto jogadores quanto fãs do herói. Mundo aberto, diversos crimes para serem combatidos e visuais incríveis para aquela época. Além dele, a coisa mais genial feita com o aracnídeo foi incluí-lo como personagem secreto em Tony Hawk’s Pro Skater 2 (Multi).

Com a expiração da licença dada à Activion junto a Sony, um novo jogo parecia incerto, ao mesmo passo que a franquia cinematográfica também enfrentava um hiato. Com a resolução entre Sony e Marvel Studios, para que o Aranha pudesse integrar o universo cinematográfico criado pela produtora, as portas foram abertas também no mundo virtual. Coube a Insomniac lidar com essa responsabilidade, e eles aproveitaram muito bem a chance que tiveram.

Acima de tudo, Peter Parker

A história do jogo é muito bem desenvolvida e poderia render uma publicação impressa ou filme sem problema nenhum. Por mais que passemos a maior parte do tempo vestidos de Homem-Aranha, trata-se acima de tudo da vida de Peter Parker, com e sem o traje. A profundidade dos personagens e suas relações entre si são apresentadas em doses muito bem ministradas, para causar surpresa a cada revelação.

Assim como uma saga publicada é dividida em fascículos, a aventura é dividida em três atos, cada um com seu foco principal. Os dois primeiros, que mostram um problema se criando desde a prisão de Wilson Fisk, o Rei do Crime, até a disputa do controle mafioso por outra gangue e o plot twist da narrativa (que não revelaremos aqui), são muito bem conduzidos, com várias missões que ajudam não só a desenvolver suas habilidades, mas também a entender que tudo o que acontece é muito maior do que Peter pode prever e até mesmo fazer.

Já o terceiro ato, que foca basicamente no embate final contra todos os vilões, poderia ser um pouco mais longo. Dá a ligeira impressão de “conclusão em um passe de mágica”.  Entretanto, nem por isso ele é mal desenvolvido e a decisão de enfrentar alguns inimigos em dupla dá uma repaginada no velho padrão de “bata no chefão até aparecer uma sequência de finalização”, adicionando certa dose de estratégia baseada em quem abater primeiro. Esse fator também contribui em muito para a dramaticidade e andamento do enredo.

Um pequeno esmero que merece ser citado é a presença de cenas pós-créditos. Esse recurso tomou fama justamente com os filmes da Marvel, com pequenos trechos que revelavam coisas que viriam em outras produções. Marvel’s Spider-Man possui duas cenas dessas. Será que seriam elas indícios de uma possível continuação ou apenas easter eggs para mexer com os fãs? Independente da finalidade delas, ambas mostraram como a Marvel Studios queria que isso fosse muito mais do que um jogo, praticamente um filme conduzido e vivido pelo jogador na própria pele do Spider.

Graphic novel jogável

Os efeitos visuais do jogo foram meticulosamente trabalhados, a um nível que impressiona. Se nos trailers os efeitos já eram de cair o queixo, o jogo potencializou isso de diversas maneiras. Nas cenas com closes nos rostos de cada personagem fica visível a marca de barba mal feita, poros, suor, marca de lágrimas e até mesmo machucados com um realismo absurdo. Em praticamente todas as vezes que em que é feita a alternância entre cutscene e gameplay, a transição é muito suave, quase imperceptível.

As telas de loading entre missões e transições de tempo também são muito bonitas. Elas mostram o Aranha em posições diferentes, sempre no traje que o jogador escolheu e respeitando o período em que o jogo está. Quando se pega o metrô para fazer a viagem rápida entre dois pontos, é possível ver animações do Amigão da Vizinhança nos vagões curtindo um som, conversando com um sósia fantasiado e até mesmo tirando um cochilo.

A cidade também ganhou um tratamento digno, com belos efeitos de luz que variavam bastante entre os períodos do dia. Pela manhã e ao cair a tarde é possível ver a luz do sol refletida nos prédios mais altos e a sombra deles diminuindo em relação aos mais baixos. Já pela noite a cidade se enche de luzes, sinais, faróis e até mesmo bueiros soltando vapor. Inclusive a ilha inteira de Manhattan foi recriada nos seus mínimos detalhes, retratando de maneira completa tanto lugares reais quanto fictícios, criados pelo universo dos quadrinhos.

A dona aranha subiu pela parede…

A mecânica de movimentação do jogo é muito boa, com pouquíssimas ressalvas. É muito fácil deixar algumas missões para depois só para ficar se balançando e correndo entre os prédios. Aquele efeito de teia grudando “no nada” praticamente inexiste e isso pode ser visto com clareza. O herói desloca-se rapidamente nas regiões com mais construções, mas fica mais difícil fazer acrobacias em lugares perto de parques ou regiões muito altas. Isso aumenta o realismo envolvido com as capacidades já conhecidas do herói. As partes conduzidas por outros personagens (Mary Jane Watson e Miles Morales) também cumprem bem o seu papel, partindo para uma jogabilidade mais simples, mas igualmente funcional e importante para a trama.

A parte estranha fica ao subir um prédio ou estrutura que possua algum tipo de beiral ou marquise. A subida é interrompida e é necessário pular para trás ou para os lados, usar a teia e desviar do “obstáculo” para poder continuar. Outro problema, menos recorrente, é a perda de velocidade ao se balançar com a teia quando a câmera gira de maneira inesperada. Em alguns momentos bem raros, ela toma vontade própria e coloca o jogador em ângulos cegos.


Quanto aos combates, os comandos são fáceis de executar e bastante intuitivos. No começo os combos são um pouco repetitivos, porém isso muda à medida que novas habilidades são desbloqueadas. Com a lista de golpes completa a variação de ataques muda drasticamente. São incluídos desarmes, agarrões aéreos, pancadas no chão, desvio de mísseis e até mesmo o famoso chute circular. As possibilidades se tornam inúmeras.

A cidade te ama, mas te odeia

Criar um mapa virtual completo de Manhattan não deve ter sido tarefa fácil, ainda mais inserindo diversos lugares ficcionais. Para a nossa sorte, o pessoal da Insomniac tirou essa tarefa de letra e apresentou um excelente trabalho. Assim que temos a primeira oportunidade de explorar tudo livremente, é impossível não querer vasculhar cada canto logo de cara. O mapa está dividido em nove distritos: Financial District, Chinatown. Greenwich, Midtown, Hell’s Kitchen, Upper East Side, Central Park, Upper West Side e Harlem.

As missões secundárias e objetivos espalhados em cada esquina fazem a cidade ser mais que um pano de fundo para as batalhas do Homem-Aranha. Inclusive cada uma delas tem sua maneira de ser executada. Cada distrito tem sua taxa de crimes a ser combatidos, bases inimigas para serem desligadas, mochilas para serem achadas, fotos para serem tiradas, laboratórios para serem ativados e os famigerados desafios do Taskmaster.

Ainda falando na cidade, um personagem merece destaque, J. Jonah Jameson. O ex-chefe de Peter Parker no Clarim Diário agora tem um podcast e apesar de não aparecer de modo presencial no jogo, ele marcou sua presença da maneira mais hilária possível. Enquanto exploramos as ruas da Big Apple, vira e mexe começa um áudio do infame podcast, sempre trazendo diversas atrocidades inventadas da sua cabeça conspiratória. Isso mostra que mesmo com todo esse tempo dedicado ao combate ao crime, Peter ainda tem severos opositores.

Por último, não se pode deixar de falar do Modo Foto. O jogador é livre para pausar a qualquer momento (inclusive durante as missões) e bater fotos. No entanto, essas não são que nem as fotos tiradas dos monumentos da cidade. Trata-se de um modo exclusivo para compartilhamento nas redes sociais que podem ser desde fotos das paisagens até selfies do nosso herói nas mais variadas situações e locais. Junto com uma série de filtros e molduras, é um dos adicionais mais interessantes e divertidos do game.

Com que aranha eu vou?

Jogo do Homem-Aranha tem que ter trajes variados, isso é um fato. Entretanto a parte interessante fica com os poderes de cada uma libera. São 28 roupas distintas, cada uma com um poder diferente (com exceção de quatro, que não contém poder algum). Você pode ir liberando cada uma com os diversos tipos de ficha que ganha completando as missões secundárias. Uma vez liberadas, é possível mudar seu traje, mas sem ter que deixar de usar o poder previamente escolhido, a escolha é livre.

As habilidades do aracnídeo podem ser desenvolvidas à medida que o jogador vai ganhando níveis. São 34 habilidades que irão influenciar no seu estilo de batalha, furtividade e deslocamento pela cidade. O personagem pode ser evoluído até o nível 50 e cada level up confere um ponto de habilidade. Porém, não há necessidade de ficar pensando muito em qual escolher primeiro já que esse é exatamente o número total de pontos precisos para desbloquear todas as habilidades.

Além disso, o Aranha ainda pode utilizar três tipos de modificações diferentes, que também vão sendo liberados e “comprados” como as roupas. Por fim, gadgets diversos auxiliam bastante na hora da abordagem furtiva e do combate, com projéteis que vão desde bombas de teias até disparos elétricos.

Você fala “aranhês”?

A localização do jogo é bastante competente, porém dá uma escorregada quando se trata de ambientação. As vozes escolhidas para os personagens principais são muito convincentes e realmente combinam com cada um. Entretanto, quando se sai cidade à fora, é possível escutar o burburinho dos cidadãos ao passar por eles tanto em inglês quanto em português (na maioria das vezes em inglês).

Um trecho onde essa discrepância fica claramente visível é ao ativar as antenas que revelam o mapa do jogo. A tarefa é sintonizar o rádio da polícia nas diversas estações encontradas. Ao concluir isso, a frequência solta um áudio em inglês. Não parece muito lógico porque em outros diversos momentos em que se ronda o mapa aberto, a polícia anuncia os crimes em português frequentemente.


Outro fato que dividiu opiniões foi a escolha de não traduzir os nomes para o modelo que já conhecemos. Não se trata de um jogo do Homem-Aranha, e sim do Spider-Man. Logo, todos os codinomes seguiram a mesma regra. No começo fica estranho ouvindo de primeira, mas é algo que não atrapalha a experiência oferecida (a menos que você seja um fã muito hardcore). 

Marvels’ Spider-Man tinha uma missão muito clara: trazer de volta um dos maiores super-heróis da história para o mundo virtual com o tratamento que ele merecia. A meta foi alcançada com louvor sem sombra de dúvidas. Talvez algumas falhas técnicas não façam dele o Game of the Year, mas ainda sim a experiência oferecida é única e vai agradar tanto àqueles que são fãs de carteirinha do aracnídeo, quanto os que apenas querem uma boa aventura com um herói fantasiado.

Prós

  • Bom humor característico de sempre;
  • Combates criativos contra os chefes
  • História muito bem trabalhada e envolvente;
  • Jogabilidade intensa e precisa;
  • Modo Foto;
  • Variedade de trajes e habilidades;
  • Visuais belíssimos.

Contras

  • A câmera às vezes se perde sozinha;
  • A dublagem do ambiente se confunde ao fundo entre português e inglês;
  • Algumas missões secundárias podem ser um pouco repetitivas;
  • Escalar prédios com beirais exige manobras estranhas.
Marvel’s Spider-Man – PS4 – Nota: 9,5

Análise produzida com cópia física cedida pela Sony
Revisão: Marília Carvalho

Carlos França Jr. escreve para o PlayStation Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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