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Análise: Persona 3: Dancing in Moonlight & Persona 5: Dancing in Starlight (PS4/PS Vita) — ritmo e estilo

Os novos spin-offs de Persona trocam o JRPG por dança em títulos viciantes e visualmente chamativos.


Uma das características mais marcantes da franquia de JRPGs Persona é a sua trilha sonora contagiante e muito bem produzida, sendo que cada título da série tem identidade musical própria. Pensando nesse detalhe e aproveitando a popularidade de Persona, a Atlus decidiu lançar spin-offs de ritmo baseado nos jogos da franquia. Persona 3: Dancing in Moonlight e Persona 5: Dancing in Starlight colocam os personagens de Persona 3 e Persona 5 para dançar ao som da música dos jogos. É fácil notar que os fãs de Persona são o público alvo desses títulos, porém uma jogabilidade divertida, trilha sonora notável e atmosfera estilosa os tornam acessíveis para todo tipo de público.

As duas novas investidas de ritmo da série Persona usam como base Persona 4: Dancing All Night e trazem algumas pequenas mudanças, como a ausência de modo história elaborado. Os jogos são idênticos em termos de mecânicas, jogabilidade e conceitos principais, sendo as diferenças o conteúdo (personagens e faixas) e visual. Em Dancing in Moonlight acompanhamos os membros do SEES de Persona 3, já em Dancing in Starlight reencontramos os Phantom Thieves de Persona 5. Sendo assim, escolha sua equipe favorita e caia na dança.

Bem-vindo ao Velvet Club

P3D e P5D têm uma trama, mesmo que não seja lá muito elaborada. Em ambos os jogos, os heróis são levados para o Velvet Club (uma versão alternativa da tradicional Velvet Room) durante um sonho e são forçados a participar de uma competição de dança. O motivo parece uma simples desculpa para colocar todos para dançar, no entanto, aos poucos, são reveladas as reais intenções das administradoras da Velvet Room. O mais legal é que um jogo referencia o outro frequentemente, e há também ligação com Persona 4: Dancing All Night.

Na prática, Persona Dancing é um jogo de ritmo tradicional, ou seja, em cada estágio precisamos fazer comandos no momento certo no ritmo da música enquanto os heróis dançam. As notas surgem do centro da tela e precisamos apertar um dos seis botões quando elas chegam nas extremidades da tela. A complexidade vem da combinação de toques simples, notas duplas, ações de segurar os botões e toques simultâneos.


Fora as notas comuns, aparecem os Scratch Rings, anéis que são ativados por comandos diferenciados: touchpad do controle do PS4, tela de toque do Vita, alavancas ou botões R e L. Eles são opcionais por padrão, porém dão pontos. Os anéis do tipo Fever ativam um momento especial na música em que os erros têm penalidades menores e os heróis realizam uma dança conjunta.

Dançando com os dedos

As mecânicas de ritmo de Persona Dancing são bem tradicionais, no entanto a experiência é um pouco diferente por causa da disposição das notas. Ao invés de seguir estritamente a melodia, há trechos que, na verdade, o jogador “complementa” a música com as notas. É um pouco estranho em um primeiro momento, pois é meio difícil conseguir entender o ritmo, porém com algumas partidas fica mais natural e prazeroso. A sincronização entre notas e música está muito melhor em P3D e P5D em comparação com P4DAN — no jogo anterior, várias faixas tinham comandos que não combinavam muito bem com o áudio.

O jogo conta com quatro diferentes níveis de dificuldade, indo do Easy até o All Night. Quem não é muito bom em jogos de ritmo vai se divertir no Easy e Normal, já o desafio de verdade começa no Hard. A dificuldade All Night subverte um pouco os padrões das outras dificuldades, resultando em uma experiência bem desafiadora — eu penei bastante nesse nível, mesmo já estando acostumado com outros títulos de ritmo difíceis. Modificadores permitem customizar as performances diminuindo ou aumentando a dificuldade, tornando o jogo bem acessível. Essas customizações também estendem a experiência de jogo, já que elas podem alterar significativamente as mecânicas.


Um detalhe irritante em Persona Dancing é seu sistema de classificação e as condições para terminar uma música com sucesso. Para sair vitorioso de um estágio, precisamos preencher uma barra com acertos. O problema é que esse sistema não leva em consideração o desempenho geral da faixa, mas sim o estado da barra no final da música. Por causa disso, é perfeitamente possível perder em um estágio por errar algumas notas no final da performance, já que não há tempo hábil para recuperar a barra. Também acontece de você terminar a música, mas não conseguir pontuação suficiente. Particularmente preferia uma classificação mais abrangente e menos punitiva.

Coreografias estilosas e laços sociais

A série Persona é conhecida pela atmosfera estilosa, ótima trilha sonora e mecânicas de relacionamentos entre os personagens. Ambos os novos Persona Dancing apresentam todas essas características.

Cada um dos dois jogos conta com 25 faixas, entre remixes e composições em sua forma original. Há, também, temas de abertura e encerramento inéditos. A seleção é boa, contando com a presença de músicas icônicas dos jogos. Persona 3: Dancing in Moonlight tem faixas como o tema de batalha “Mass Destruction”, a energética “When the Moon Reaches for the Stars” e até mesmo “Light the Fire Up in the Night”, tema de combate de Persona Q: Shadow of the Labyrinth. Já Persona 5: Dancing in Starlight conta com a presença da abertura de P5 “Wake Up, Get Up, Get Out There”, o inesquecível tema de batalha “Last Surprise”, a marcante “Rivers in the desert” e mais.


Boa parte das músicas presentes nos jogos são remixes agitados, o que faz sentido dentro da temática dançante do jogo. No geral, gostei bastante de boa parte das novas versões, algumas composições apresentam re-interpretações bem legais do material original, como a excelente "Wake Up, Get Up, Get Out There" (Jazztronik Remix). Claro, há também algumas versões pavorosas, como "Deep Breath Deep Breath" (Yuu Miyake Remix) (ficou completamente irreconhecível). Um detalhe chato é que há muita repetição na seleção: em ambos os jogos, uma mesma música aparece duas ou três vezes. De qualquer maneira, há variedade na trilha sonora, por mais que claramente seja direcionada aos fãs da série.

Os heróis acompanham as músicas em danças elaboradas e muito bem coreografadas. Um detalhe legal é que a personalidade dos heróis são retratadas em seus passos: Futaba utiliza um monte de movimentos malucos e divertidos, Akihiko mistura golpes de boxe em suas coreografias, Haru retrata seu refinamento com passos de balé, já Junpei esbanja sua animação com movimentos exagerados. Os momentos em dupla no Fever potencializam ainda mais todas essas características. As danças são estilosas e muito divertidas de se ver.


Os laços entre os personagens e a trama são explorados no modo Social. Ao fazer certas tarefas no jogo, são liberadas conversas entre os personagens que lembram bastante os Social Links dos JRPGs da série. As esquetes são divertidas e exploram as personalidades dos heróis, por mais que na maior parte delas a dança seja o tópico principal. Um dos meus pontos favoritos no modo Social é a interação entre personagens coadjuvantes em conversas cotidianas, fato esse que não acontece muito nos títulos tradicionais da franquia, já que neles o foco sempre foi o protagonista.

O modo Social substitui o extenso modo história de P4DAN e, para mim, foi uma decisão acertada: os diálogos são rápidos, exploram os personagens por outros ângulos e o texto é bem divertido. Há recompensas por liberar as esquetes, como roupas e acessórios, no entanto é perfeitamente possível ignorar as conversas.


Um jogo, duas versões

O novo Persona Dancing tem duas versões, uma focada em Persona 3 e outra em Persona 5, ambos disponíveis tanto para PlayStation 4 quanto para PS Vita. O conteúdo é idêntico, porém a versão para PS4 apresenta desempenho técnico melhor, além de suporte ao PS VR em opções específicas. Em contrapartida, a versão portátil custa um pouco menos.

Individualmente, o custo versus benefício é limitado, pois cada um dos jogos apresenta somente 25 músicas. DLCs amenizam isso ao incluir novas faixas, porém boa parte delas é paga. A discrepância fica ainda maior quando você leva em consideração outros jogos de ritmo disponíveis para os dois consoles, como DJMAX Respect, Musynx e Hatsune Miku: Project Diva Future Tone, que têm uma quantidade de conteúdo mais significativa e custo um pouco mais baixo.


Uma alternativa é o pacote Persona Dancing: Endless Night Collection no PS4. Além de incluir P3D e P5D, o conjunto contém também a versão para PS4 de Persona 4: Dancing All Night. Lançado anteriormente somente para PS Vita, a aventura de ritmo de Yu Narukami e seus amigos tem desempenho melhor no PS4, mas fora isso não há novidades. Se você é fã dos spin-offs de ritmo de Persona, o pacote Eternal Night é uma boa opção.

Ritmo viciante

Persona 3: Dancing in Moonlight e Persona 5: Dancing in Starlight celebram a música e a temática estilosa da série na forma de ótimos jogos de ritmo. As memoráveis composições são acompanhadas de mecânicas sólidas, coreografias contagiantes e visual colorido, resultando em uma experiência repleta de energia. Além disso, vários níveis de dificuldade e inúmeros modificadores fazem com que o jogo seja acessível. As características cenas de interação entre os personagens estão presentes no modo Social, que contém várias esquetes divertidas que exploram as personalidades dos heróis. Infelizmente o jogo peca em ter conteúdo reduzido dividido em duas versões, com algumas repetições nas seleções — talvez fosse melhor um único título contendo tudo.

Persona 3: Dancing in Moonlight e Persona 5: Dancing in Starlight são claramente direcionados para os fãs da série, que com certeza vão se divertir revendo seus personagens favoritos. Por sorte, por trás do fan service, há um jogo de ritmo competente e muito divertido. Escolha a sua equipe (ou até mesmo as duas) e prepare-se para dançar a noite toda.

Prós

  • Mecânicas de ritmo sólidas, especialmente nas dificuldades mais elevadas;
  • Ótima trilha sonora com a presença de remixes das músicas originais;
  • Visual elaborado, com atmosfera energética e estilosa;
  • Modo “Social” explora e expande as personalidades dos heróis.

Contras

  • Quantidade limitada de músicas em cada uma das versões;
  • Repetição de certas composições na trilha sonora;
  • Pequenos problemas nas regras de classificação de desempenho.
Persona 3: Dancing in Moonlight & Persona 5: Dancing in Starlight — PS4/PS Vita — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS4
Análise produzida com cópia digital cedida pela Atlus
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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